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Hamlet On Line


Encontrando madrugadas no meio das memórias, descobrindo a ficção daquelas mãos que eram tão jovens. Olhando o fundo do poço de onde havia saído já há algum tempo. Tendo um bordeaux e um cigarro já se faz alguma coisa. Faço...assaltando a mão armada a própria tristeza, arrancando à força algum tipo de felicidade ingênua, passiva. Frases curtas, baforadas longas e goles cuidadosos. Tenho saudade daquele, que ainda não existe, que um dia virá. Cuidadoso, que é a característica deste tipo gentil e me dirá sutilmente no ouvido ainda quente da sua boca: “Tudo é inútil, teu coração foi feito pra amar...”, e a lua,  a grande meretriz desta noite, aberta por completo, escancarada e devassa, sugando nas suas entranhas toda escuridão do meu quarto, não permite que a frase se complete. Escuridão é tapete vivo, carne exposta, cabernet sauvion. Trapaceira senhora dos dados e da roleta, aposto todas as minhas fichas – as que tenho e as que terei – que um dia ainda a deflorarei com toda força e a chamarei pelo seu primeiro nome: “Solidão”, e você há de parir um filho com meu nome, igual a mim, mas com uma diferença; feliz. 



Escrito por Hamlet às 23h54
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26 de outubro

26/out

 

Acordei às três da manhã, depois de sonhar que queria fazer uma festa de aniversário e não conseguia. Que das paredes brotavam coisas e que com um pincel e uma tinta elástica eu consegui prender tudo e formar uma parede nova, branca, que continha tudo e que deixava o passado à mostra. Do fundo da sala, uma fenda foi aberta e todos os meus mortos vieram ao meu encontro. E que felicidade foi revê-los. Mortos que estão mortos e que há muito não encontrava, e mortos que estão vivos e que há muito tempo não encontro. Acordei com a sede de um brinde. Um brinde à Vida em primeiro lugar. Depois, um brinde à Morte das coisas inúteis, de tudo que é fútil, que só vive pra si e por isso mesmo tem seu encanto passageiro. Brinde à queda dos anjos de olhos claros em plena via pública, conhecedores assim da dor da queda dos ídolos. Brinde à queda dos sábios de barba branca e cabelo desarrumado, conhecendo assim a felicidade da ignorância do amor. Feliz Ano Novo ao peito aberto em flor pela primavera, que anseia pelo próximo tiro, pela próxima faca, pela próxima agulha. Pelo sorriso que antecede ao golpe, pelo silêncio do sangue que escorre, pela dor da retirada do objeto, pela felicidade de saber que por pior que seja, vai passar. Um brinde às valas e aos vermes que providentes limpam devagar e sem pressa os corpos que se decompõe. À natureza por nos prover de vermes e permitir que pela terra adubada brotem flores. Muitas flores. Um brinde às cicatrizes que carregam em si o passado e a potência da carne exposta, das fibras dilaceradas.  Um brinde à Aurora do dia que rompe na janela, com o prenúncio de ser banal, trivial e pelo convite que traz consigo de lhe cravar os dentes e as unhas e saboreá-lo como uma pêra madura até o crepúsculo. Um brinde à noite que virá,  pois ela virá e há de cobrir de estrelas meu pensamento e meus olhos. Um brinde aos sonhos que virão, pois é com eles que tecerei cuidadoso, mas já sem medo o meu futuro. 



Escrito por Hamlet às 14h41
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Meu abandono é um hábito que cultivei a vida toda. Tem dias que vestir o hábito traz em si o alento da alma que corroída desfaz-se em minúsculas partículas de nada em cima de uma cama.

Tem dias em que esqueço o hábito e me pareço nu num canto qualquer do mundo, sorrindo.

Tem dias que o hábito me dá a súbita vontade de voar e me penduro na sacada, esperando, esperando...

Tem dias que o hábito desprende-se de mim e forma um cortina ilusória onde me apaixono por todas as pessoas que vejo e toco. Vivo a fantasia por meses, anos, até que de volta a mim, as ilusões do hábito enfiam centenas de agulhas minúsculas por todo corpo.

Tem dias que o hábito faz sangrar, infecciona qualquer lembrança de dias quentes de sol onde deitado ao lado de mim mesmo, me senti alguém.

Hoje a falta ou excesso de mim, uma casa vazia e o silêncio tornam meu hábito uma mortalha suave – delicada seda – que envolve, acalenta e mata lentamente a esperança de passado.



Escrito por Hamlet às 15h19
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Para meu pai.

 

 

 

Hoje, particularmente me sinto sozinho. Há muito anos atrás, numa madrugada, eu vi teu último suspiro. Teu olhar de esguelha tinha medo e nós dois sabíamos que a eternidade ali estava. Tantas frases não ditas, beijos e abraços interrompidos. Apesar de tudo havia amor. Um amor estranho, banhado pela garganta que fechava, pelo punho que batia na parede. A minha revolta juvenil, a tua ausência adulta, amadurecida. A luta por um espaço que era teu, te exauriu, te abandonou a uma artéria que rompeu. Olho teu retrato e choro, mansinho, mas choro. Quanta saudade pode caber na memória? Quanto espaço de desejo de um abraço, um último abraço eu tenho de suportar. Sorrio. Sempre vou sorrir. O respeito que veio pela maturidade na dor, me faz sorrir e dizer em profundo silêncio, que te amo.

 



Escrito por Hamlet às 16h45
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Silêncio

 

Silêncio, deixe tudo onde está.

Harmonia do entorno, onde estavas?

Deixe teus braços uma vez mais...

Cubra-me uma vez mais esta noite

Deixe meu peso cair no teu corpo

Deixe o prazer em cada canto da casa.

Deixe que eu invada a tua memória assim que ultrapassares o portão.

Não vá.

Não fique...

Sirva-me como o mais puro travesseiro de devaneio.

Fique uma noite mais...

Deixe tuas coisas, tua escova de dentes na pia amarela

Deixe teu perfume...tuas roupas, teus sonhos e arranje tua morada em mim.

Deixe tua alma nas bitucas de cigarro

E pela manhã eu fumarei uma a uma junto com o café preto da ausência.

Me leve na tuas costas, no teu peito, no teus contornos

Em mim é manhã

O sorriso é meu astro mais iluminado

E meus olhos a melodia da corda mais tensa do violino.

Feche a porta e leve a chave

Estou aqui

Debruçado no mundo

Sorrindo sem saber por que.

 



Escrito por Fantasma às 22h24
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Sem título

 

No paraíso das ilusões onde tudo me parece ser possível, vejo a imagem distorcida de um homem deitado à beira de um rio contemplando a própria imagem. Água turva da chuva onde há um alguém perdido, molhado de imaginação. Fantasia graciosa em ondas que vão e vem de acordo com as gotas que pingam sem cessar do próprio devaneio de acreditar ser possível ouvir uma voz em meio ao céu. Negror da fonte onde brota a nascente. Os olhos se desfazem, conjuntamente o rosto, barro puro, espera o sopro, pequena divindade e esperança dos dias e do porvir. Beleza sem fim. Um homem a definhar na solidão. Decompor-se em líquido afeto, deixando na terra a marca do peso, dividindo a grama, deixando um rastro de lamento em meio à natureza. Um caminho ao rio, ali, nada voltará a crescer, epitáfio prematuro, convite a um novo amor. Venha e seja breve, o devir aguarda. Um dia novo, mais uma vez a liberdade dos meus braços. Uma vez mais a realidade será feita. Uma vez mais o encanto.

 



Escrito por Fantasma às 14h51
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Quem é a mulher presa no quadro? De onde aqueles ombros carregam tanta tristeza? Deitada no sofá, deixada no sofá, mãos que tremulam na tinta óleo. Pinceladas vigorosas compõe a luz da porta, paradeiro do último instante onde findou-se tudo naqueles braços. Deitada, o rosto escondido; do ponto de vista do tecido, lágrimas correm há muitas semanas. O sofá levemente decomposto, levemente encharcado pelos olhos de quem vê. Talvez seja o visitante esteja deitado no sofá. A mulher do quadro acende um cigarro, agora é possível ver seu rosto. Olhos vermelhos, o rosto também, levemente decomposto. Deixado no sofá, uma parte da tinta, uma parte da própria história. Vê-se claramente a juventude deixada lá. Sobrou apenas a verdade. Os traços reais, uma mulher de uns trinta anos. Decidida ela traga. Decidida ela levanta, serve-se de alguma bebida, vinho provavelmente, o copo de cor indefinida pelo pintor, deixou algumas gotas vermelhas na toalha da mesa do outro cômodo. Ela pega o telefone, disca e antes que comece a tocar, desliga. Faz isso umas quatro vezes em intervalos regulares. Ela, que trajava um vestido preto de festa, fecha a porta do quarto deixando a sala em plena natureza morta. Algumas pinceladas mais claras, sugerem que a luz do quarto esteja acesa, vê-se isso por debaixo da porta e por um pequeno ponto no buraco da fechadura. Em segredo ela desnuda. Do quarto surgem algumas notas, algo como música. O visitante se aproxima do quadro tentando ouvir. Uma música familiar. Talvez ele mesmo tenha composto, talvez uma lembrança vaga de um filme. A tinta clara some, a porta do quarto se abre e a mulher deixa o quadro. Passa pelo visitante e já não é mulher e sim um homem. Abre a porta do quarto, deixando apenas o vestígio das costas assim como no quadro. E tela fica particularmente vazia. Sem amor.

Escrito por Fantasma às 16h39
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Sem título

Voltam alegres as noites em claro onde a tinta colore de branco os últimos fios de cabelo. Donde estava a imagem perdida de menino? Correr do rio, reflexo da lanterna antiga na água funda, passar dos anos correnteza abaixo. Olhar-se no espelho d’água, Narciso. Debruça o jovem sobre o rio e na própria imagem se afoga. “Doce Ofélia!”, tecendo guirlandas - Moira descuidada – compondo e cortando o fio da própria vida. Narrativa, fábula, história, ecoar. Os cantos do mundo. Uma dor. Um soluço. Dissolve-se a realidade. Hoje. Compõe trajetória. Páginas e mais páginas. Recomeço.

Escrito por Fantasma às 00h50
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Invisible Ink - Aimee Mann

There comes a time when you swim or sink
So I jumped in the drink
Cuz I couldn't make myself clear

Maybe I wrote in invisible ink
Oh I've tried to think
How I could have made it appear

But another illustration is wasted
Cuz the results are the same
I feel like a ghost who's trying to move your hands
over some ouija board in the hopes I can spell out my name

What some take for magic at first glance
Is just sleight of hand depending on what you believe
Something gets lost when you translate
It's hard to keep straight
Perspective is everything

And I know now which is which and what angle I oughta look at it from
I suppose I should be happy to be misread-
Better be that than some of the other things I have become

Invisible Ink

But nobody wants to hear this tale
The plot is clichéd, the jokes are stale
And baby we've all heard it all before
Oh I could get specific but
Nobody needs a catalog
With details of love I can't sell anymore

And aside from that, this chain of reaction,
baby, is losing a link
Though I'd hope you'd know what I tried to tell you
And if you don't I could draw you a picture in invisible ink

But nobody wants to hear this tale
The plot is clichéd, the jokes are stale
And baby we've all heard it all before
Oh I could get specific but
Nobody needs a catalog
With details of love I can't sell anymore



Escrito por Fantasma às 01h43
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Voltas

Ter a plena consciência de não saber o que é amar. Não saber a diferença entre você e eu. Ter uma vaga e mínima idéia do que seja carinho. Gostar sim, de deslizar nos teus braços nas manhãs de domingo. Gostar de ver você completamente entregue aos teus anos e teus sonhos. Teu tempo de abrir os olhos, resmungar uma palavras soltas e deixar-se abater de novo. Tudo ao redor é fraco sem você. O pensamento foi feito pro papel, a palavra foi feita pro ouvido, você foi moldado no exato tamanho deste coração aqui. Miúdo, amuado, sem vontade nenhuma de bater, exceto com a tua presença. Volta, vai! Prometo ficar quieto e imóvel enquanto você organiza tua casa. Enquanto você olha pra parede em branco e enxerga as cores que a juventude põe onde não há. Enquanto teus braços hão de forjar a tua vida e tua estrada, estarei eu observando e palpitando de longe, apenas com sopro e movimento de folhas, como o antigo oráculo grego. Não me puna por seu humano, por falhar e na minha falha revelar as tuas rachaduras. Vamos nos dar o direito de crescer juntos, quem sabe até pra romper mais pra frente. Pra redescobrir o amor uma vez mais, apaixonar-se uma vez mais e quem sabe nesse jogo, levar uma vida inteira juntos? Não vamos deixar de olhar para o que foi construído, que está gravado no tempo e na história. O movimento já estava acontecendo, somente o foco é que mudou. Tenho raiva da estupidez das minha palavras e de não conseguir traduzir aqui a falta que você faz. Mas é isso, no fundo é só isso: Você faz falta e não há o que fazer pra deixar de doer. Amo.

Escrito por Fantasma às 17h05
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Trajetos

O instante pediu licença e se  retirou. Deixou de existir numa esquina, às 17:32 de uma tarde chuvosa. Deixou um vestido colorido e um par de sapatos vermelhos de salto particularmente abandonados embaixo de um guarda chuva. Os pés escorriam cada gota. Lábios salgados no silêncio do motor do carro, na última fresta de olhar antes do vidro que subiu e se elevou aos céus da memória da moça que agora não tinha nome. Identidade perdia, documentos rasgados, promessas e títulos queimados, promissórias devidamente guardadas, cada centavo de tempo contabilizado. Cada quilo perdido, cada marca a mais no rosto e no corpo, cada comprimido engolido pra dor de cabeça, cada calmante desejado, cada ficção planejada. Cada gota a mais do copo. O céu complacente. A moça sem nome não chorava, apenas refazia trajetos. Subia e descia escadas de um lugar que aos poucos foi ficando inabitado. Silêncios e pausas formaram um novo alfabeto para a moça que refez sua identidade. Que adquiriu contornos, que fechou algumas portas, que abriu armários fechados por muitas chaves, que remexeu arquivos, que roubou sonhos sem ter consciência de serem sonhos, que destruiu sonhos sem ter consciência de serem sonhos, que fez a sua volta um abismo elegante de mistério. Envolta em tanta seda e camadas de tule mal se podia ver a moça que adoraria que a orquestra atacasse e nunca atacou. Que ouvisse o “sim”, que nunca veio, que dividisse o mundo com homem que vive só, preso à sua própria dor. Temente ao deus criado por si mesmo no mundo onde não há erro, somente tentativas falhas para obra que não tarda a ser finda. Obra esta de nome ainda desconhecido do próprio inventor, descolado de sua imagem e feito à semelhança das convicções impávidas, com nomes próprios e capas coloridas devidamente colocadas na estante ainda não organizada em ordem alfabética. Um cigarro é aceso, a fumaça bate na janela e roça pingos d’água. O homem, sentado à sua mesa imagina o mundo, rememora o big bang, refaz trajetos, pensa ouvir passos, tentar ouvir passos, desliga a música que insiste em bater na mesma tecla. Envelhece mais alguns anos. E de memória em memória, no meio dos trajetos eles se encontram. Uma imagem é gravada e impressa no tempo: um homem, sentado à sua mesa, imagina novas cores enquanto envelhece; uma moça de vestido colorido e sapatos vermelhos envolta em preto e branco numa esquina, espera que a chuva passe e que a tarde caia para finalmente desistir.



Escrito por Fantasma às 02h10
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Gota d'água

Eu o retive por um momento. No ápice da valsa. No rodopio último, um toque na seda branca. Debaixo das anáguas já não havia ausência, somente o pulsar daquele momento em que concretamente existe a felicidade. Ele sabe, sente o quanto a marca está. Posso morrer e renascer infinitas vezes, ser homem ou mulher, e carregarei a cicatriz no ponto derradeiro do toque. Posso morrer e o faço. Faço apenas é ficar só, enquanto cobrem o teu túmulo com a terra vermelha. O negro na seda me acalenta. Já não estou só. Vesti negro tantas outras vezes. Deitei-me com o luto tantas noites, que só dele tenho tantos filhos perdidos que nem dou conta de saber seus nomes. Deixo-os para o mundo. Coloco-os no mundo. Deixe que cresçam. Tomem corpo e forma, assim como agora gero neste ventre mais um. Que me reconheçam como mãe ou pai, tanto faz. Nos olhos só vejo a estrada que parece não ter fim. Estrada de tristeza. Amargura cor de piche, tal qual a seda. Não sei se deitada sou mulher ou sou estrada, se sou mãe ou sou tristeza. Talvez tudo seja uma coisa só. Mas este filho terá nome. Hei de nomeá-lo e eu mesma o enterrarei ao teu lado, nasça ele vivo ou morto. Pois carregar um filho teu, seria o maior castigo dos meus olhos.

Escrito por Fantasma às 23h47
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Carta póstuma a um suicídio.

O silêncio cobrirá teu nome, cobrirá o meu e juntos estaremos sem identidade no mundo. Separados, pois não há espaço para nós dois. Juntos causamos doença. Sozinho eu cuidei das feridas da guerra absolutamente fria e silenciosa do cello e do piano que produzem a tristeza em Brahms. Choro toda vez. Choro todo dia o silêncio e o hiato da palavra cotidiana. Nos tornamos cotidianos, não suportando mais o lavar de pratos, o lavar da roupa suja que se produz na fragilidade. Em camas separadas, ainda viramos, um para um lado e o outro para o outro. O outro que existe e lateja de esperança em pertencer. Ambos temos o dom de encantar, talvez? Mas nunca, é o que parece, temos o dom de amar alguma coisa tão intensamente como amamos o sonho, devaneio, fantasia, fábula, talvez? Fabular nos dá a seiva da árvore antiquíssima da arte, nos dá o poder de transitar entre o Olimpo e o Hades, e através dos choques, conhecemo-nos como homens. Depois de toda verborragia de tardes e noites onde cafés e cigarros nos davam o pretexto apenas para um compartilhar profundo de vivências, hoje as três ou quatro palavras diárias nos satisfazem. É isso que sobra. É o que resta, ou não? Se puder responder, por favor o faça. Caso contrário, façamos destas as nossas linhas, que cortadas por Parcas, definirão a nossa morte um ao outro. Para que as palavras continuem vazias, e até o dia próximo onde não diremos nada e naturalmente como uma sombra que se funde ao escuro, desapareceremos dos olhos e do pensamento um do outro, para andarmos sem identidade por novos mundos. Não manifesto aqui o amor carnal, este já há muito foi jogado ao mar e cobriu de cinzas todo um céu de vida que na espera morreu feliz. Feliz pelo fim.  Do escapar da areia pelas mãos. Na ampulheta da espera, meu tempo se esgotou, assim como rios secam nas épocas de seca e surgem novamente nas cheias. Hoje a chuva cobre meu rosto e posso dizer que sinto o gosto da água. A chuva, com seus olhos claros me cobre e acalenta em noites de frio onde antigamente ou num passado de eras infindas era necessário muito mais que realidade para embalar. O que escrevo hoje é a falta. Falta da felicidade. Falta do teu rosto iluminado. Falta das tuas palavras que outrora me fizeram artista. Hoje sou meramente um homem, que envelhece ao som da própria insônia, de noites em claro procurando em livros, filmes e música o verdadeiro sentido de alguma coisa que dizem não existir.



Escrito por Fantasma às 00h46
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Tristeza. Por nada em especial. Tristeza. A vida de memória em conta gotas. Não isso. Não por isso. Quero dizer. Querer dizer. A igualdade. A duplicidade não significa o compartilhar. O dedilhar na corda tensa do arco e do tempo. Música antiga. Primórdios. Ancestralidade no corpo ainda sem rugas. Ancestral em círculos. Círculos da fumaça de mil cigarros em orquestra. A música do eterno voltar. Rasga o peito com a batuta e atinge direto o coração que nasceu sem voz. Que na mudez dos anos encontrou em notas e partituras a voz que hoje cessa. Membros atrofiados de noites em claro, numa música insana a repertir-se sem parar. Cada vez mais rápido, cada vez mais alta, cada vez mais com menos ouvintes. Tudo apagado. O músico continua. Por não poder parar. Por fundir-se ao instrumento. Madeira, contorno, cordas. Cordas que estouram uma a uma. Deixando no ar os fios repuxados de Ariadne. Fios que deixam a história confusa. Fios embaralhados, pedaços de madeira, caminho do labirinto. Na calada da noite, olhar-se no espelho e ver o tronco de touro. Como ceia: carne crua. Vida crua. De uma outra moça. Que se perdeu no labirinto. Sem deixar um fio de vida pra trás.



Escrito por Fantasma às 22h08
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Uma vida. Uma vida qualquer. Deve ser vivida. Verbo: dever. Andar apressado. Compromissos que escapam à memória. Verbo: escapar. Saudade daquilo que se passou. Saudade de um passado onde a felicidade parecia possível. Tudo passa. Verbo: passar. Desdobramentos, caminhos, estrada que bifurca. Ficar em pé, olhando os caminhos e o nó no coração de não saber para onde ir. Verbo: ir. Onde eles estão? Onde eu os perdi? Não entender onde, como, porque. Não entender nada. Desejo e vontade num estado de suspensão. Num estado criogênico. Congelados por não sei quanto tempo até num dia se manifestarem. Verbo: manifestar. Deixar que as coisas corram livres de qualquer projeção. Projetar apenas aquilo que se faz necessário no instante seguinte. Sem previsão de futuro, com as provisões cuidadosamente armazenadas em anos de fala contínua. Verbo: continuar. Na espera da manifestação do verdadeiro. Espelhos que quebram, que deturpam, que oferecem a imagem desgastada de um menino perdido. Verbo: perder. O menino cresce. Os pés cravam a terra e as mãos cortam o ar na corrida rumo à morte. Morte dos signos, morte de metáforas, morte de tudo aquilo que já não faz sentido ser carregado. Por fazer peso demais. Por atrasar o trem no peito nu. Deixar-se para trás. Deixar-se para trás em partes. Fragmentos. Verbo: deixar. Anotar nas costas da mão, na palma, no pulso e nos braços o que se tem de fazer. Deixar o resto do corpo em branco. Para a escritura feita de tempo. Feita de história. Feita do porvir. Não escolher a estrada, deixar-se escolher por ela. Verbo: viver. Devir.



Escrito por Fantasma às 12h22
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